Amor e Balas de Morango

janeiro 31, 2013 § Deixe um comentário

Mais uma vez na porta chegava um recado. Escrito em papel de pão, com grafite desmanchado de lápis de ponta quebrada. Nele apenas um “Quero te ver”. O menino de entrega bateu na porta, entregou o papel e saiu correndo contando as balas que enchiam a mão. Era pago pelo recado com balas de morango. Eram as mais gostosas. Ela ainda de pé no portal de entrada abria o recado e, ainda com lágrimas nos olhos, do último encontro, deixava cair uma no papel que manchava. Mais uma vez jurava ser a última derramada. E de novo rasgava e jogava na rua. Ficaria com o pensamento no bilhete até o cair da noite, quando sai para passear, como de costume, pela vila com as amigas. Passeavam pela praça e seus olhos, sem que pudesse controlar, observava a única casa de luz acesa no entorno. Por mais que quisesse fugir, era ali que seus pensamentos sempre caiam. Como sempre passavam pela casa, que era a única venda da cidade aberta até tarde. Compravam balas e refrigerantes. A jovem senhora entregava-lhe a garrafa junto com mais um recado e um sorriso no rosto, com todo o carinho que só um sorriso de amor pode acarinhar a alma. A letra feminina pedia que, mais uma vez, a encontrasse, depois que todos estivessem dormindo, na porta da venda. O dono saudava as meninas e sempre dizia já estar velho para estar acordado até aquela hora. Então sai em direção a casa ao lado e se recolhia. A cidade inteira reunida na praça, depois de prosas sobre o dia, ia se recolhendo aos poucos, até sobrar apenas ela que se despedia das últimas amigas que partiam. Mais uma vez ela estava ali, no meio da praça, esperando o sinal de que todos já estariam dormindo e que a porta da venda se abriria para ela receber doces, que apenas ali naquela venda poderiam ser vendidos. Esperou o sinal. A porta abrira, quando por um instante a menina recuou. Pensou. Depois do doce amor recebido, sempre lhe restavam a volta para a cama vazia e o salgado sabor das lágrimas de solidão. Desceu a calçada e na direção oposta a porta, voltou para casa. Naquela noite tentaria não chorar e esperaria até que seu coração esquecesse o doce sabor daquele amor impossível. Em pé na porta, postou-se a mulher do vendeiro, com balas de morango nas mãos e o olhar de procura pela praça. Ao longe observou o contorno da jovem menina desaparecer no fim da rua. Pela primeira vez chorou na cama ao lado do marido que dormia sem nada perceber. E por várias noites derramou lágrimas. A menina acabou perdendo o gosto pelas balas de morango e hoje prova de outros sabores possíveis fugindo das lágrimas e da penumbra de amores  impossíveis.

 

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Viver sem tempos mortos

janeiro 31, 2013 § Deixe um comentário

A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.

Trecho da Peça VIVER SEM TEMPOS MORTOS, inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, com Fernanda Montenegro.

Dia da Saudade

janeiro 31, 2013 § Deixe um comentário

Disseram que hoje era dia da Saudade. Nem sabia que sentimento tinha dia. Que motivos teria alguém para criar o dia da saudade? Um amor do passado? Os pais que se foram? A infância passada? A juventude perdida? Sei lá porque alguém resolveu criar esse dia. Sinto que todos os dias são dias de saudade. Sinto-a de várias coisas, até mesmo aquelas que não vivi.

Ela

janeiro 30, 2013 § Deixe um comentário

Ela era mais previsível que grupo de pagode terminando a apresentação com “Por onde for quero ser seu par…”

Doce Mar

janeiro 30, 2013 § Deixe um comentário

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“É doce morrer no mar

Nas ondas verdes do mar…”

Dorival Caymmi

Tristezinha

janeiro 30, 2013 § Deixe um comentário

Tristezinha ia calada pela rua. Seu choro, era um chorinho, uma lamuria, tão pequenina, que nem ela percebia estar chorando. Descia a ladeira que dava no lago. Chegava no final da tarde à beira, no horizonte o sol ia para o outro lado do mundo e suas lágrimas continuavam a cair, sem que ela fizesse força. Mas era o sol se pôr, que suas lágrimas secavam. O sal, que junto as lágrimas, escorria, ia marcando as linhas de seu rosto, já não tão novo. Desenhos se formavam no rosto, já enrugado, e os lábios murchos agora se erguiam em um sorriso. O céu já escurecia quando ela se levantava da beira do lago e voltava para casa sorrindo. Dizem que todos os dias Tristezinha, mesmo já bastante debilitada com a idade, faz o mesmo caminho de casa até o lago. É só ouvir o barulho da cigarra anunciando o final do dia, que ela sai de casa aos prantos e segue em direção ao lago. Dizem que tudo começou com um amor de Tristezinha que partiu ao  pôr do sol, em um vapor, lá pelos lados do mar. Outros dizem que a loucura lhe toma a mente desde muito nova e que sem motivos se dá aos choros. A verdade das lágrimas, só Tristezinha conhece. Pode ser como toda antiga tristeza que temos e que sempre deixamos guardada lá no fundo, naquelas gavetas onde volta e meia guardamos antigos amores. De tempos em tempos, abrimos tal gaveta e retiramos, como Tristezinha, um deles para passear e assim lavar os olhos e o coração.

Coração Vulgar

janeiro 29, 2013 § Deixe um comentário

“Que o amor que morre é uma ilusão
E uma ilusão deve morrer.”

 

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